quinta-feira, setembro 15, 2011

Relação de causa e efeito como valor

Recebi um e-mail que fazia referência ao texto publicado num dos portais de notícias na internet (Linha dura é receita da 1ª colocada pública regular de SP no ENEM).
O texto merece uma discussão pois alinha elementos que, de forma recorrente, vem aparecendo em discursos sobre o tema da educação vinculados pela mídia.
A matéria tem como ponto de partida a escala hierárquica que anualmente é apresentada após a divulgação dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Escala que apresenta em ordem decrescente as notas que, a partir de um ajuste estatístico, são atribuídas às escolas cujos alunos participaram da prova no ano anterior.
A apresentação desses resultados é amplamente explorada pela grande mídia e acaba atraindo a atenção de uma parcela da sociedade brasileira.
A comparação entre as notas de escolas públicas e escolas privadas é o ponto central. A tendência construída a partir da apresentação anual dessa escala é que os resultados das escolas públicas seja inferior aos das escolas privadas.
Mais recentemente, uma nova classificação vem sendo considerada: escolas públicas de maior e de menor desempenho. As primeiras - que acabam se equiparando ao grupo das escolas privadas - são, usualmente, as escolas técnicas federais ou estaduais, os colégios militares e as escolas de aplicação das universidades. São escolas que, em geral, realizam um processo seletivo para ingresso que considera o mérito escolar, desenvolvem atividades em tempo integral, que os professores trabalham em regime de dedicação exclusiva e possuem recursos pedagógicos à disposição para o uso no trabalho.  
As demais - chamadas, na matéria, de “escolas regulares” - são, em sua maioria, as escolas públicas estaduais que recebem qualquer aluno que requeira matrícula, cumprem apenas a carga horária mínima de aulas, que os professores são remunerados pelo número de aulas dadas e possuem poucos recursos.
Ou seja, foi criada uma nova hierarquia, agora, no interior do conjunto das escolas públicas.
A matéria se propõe mostrar a escola pública classificada como regular que obteve a melhor nota no ENEM. O texto leva o leitor a concluir que um aspecto específico do funcionamento da escola é determinante do resultado obtido na prova. De modo objetivo: que há uma relação de causa e efeito entre a chamada “linha dura” (expressão que está no título da matéria) da administração da escola e a nota no ENEM.  
É necessário lembrar que uma realidade é sempre resultado de uma multiplicidade de fatores. Portanto, a nota obtida por uma escola em uma avaliação como o ENEM não pode ser entendida como resultado de uma única dimensão, especialmente do que poderia ser chamado de uma forma de gestão da instituição.
Logo de início, o próprio texto faz uma menção muito rápida, ao fato de que a escola em questão faz seleção dos alunos ingressantes. Segundo a matéria, a escola recebe “os melhores alunos da rede municipal no último ano do fundamental". Logo, nesse aspecto, ela se iguala aos colégios militares e às escolas escolas técnicas federais e estaduais que fazem um exame para selecionar os ingressantes.
Contudo, vejo um outro aspecto que me desperta atenção e, principalmente, preocupação. Trata-se de uma visão que nós podemos nomear (tomando os devidos cuidados para não cairmos numa simplificação) de conservadora.
O aspecto central do sucesso dessa escola pública é apontado como o modo de funcionar que se caracteriza por uma rígida hierarquia que se funda na personalização da gestão. De um modo sintético: a escola é dirigida com "mãos de ferro" por uma diretora que possui características pessoais que resultam numa "ordem" do trabalho que leva a um resultado valorizado (notas do ENEM e aprovação em exames vestibulares).
O ponto central é justamente o caráter privado: a gestão da escola centralizada na pessoa da diretora e sendo essa pessoa portadora de uma missão que lhe foi atribuída em caráter privado (o cargo ocupado a partir de um convite feito pela secretaria de educação, há onze anos, em função de sua reputação). De outro lado, a racionalidade administrativa é reduzida às regras que visam a coerção que, pelo empenho pessoal da diretora, levam ao funcionamento em ordem. Não é por outro motivo que o texto cita entre as falas atribuídas à diretora da escola, as afirmações: “Outra coisa que não existe na minha escola..." ou “também não deixo usar boné e celular”.
Nada se fala do trabalho educativo desenvolvido na escola. Provavelmente, esse deve ser um dos principais elementos que diferenciam a escola das outras. Ou seja, o processo de ensino e aprendizagem que envolve professores, alunos, funcionários, pais e outros personagens desprezados na matéria.
Trata-se de um texto de grande apelo. Os elementos considerados e os juízos apresentados vão ao encontro de expectativas e entendimentos do senso comum. Agora, nós que somos profissionais da educação não podemos nos fiar pelo raciocínio que está presente no texto.
A leitura dele não pode ser apenas a das linhas mas dos motivos e dos valores que estão por trás delas.

domingo, setembro 04, 2011

A internet e a educação escolar

Quais as possibilidades da internet para o a educação escolar? Essa pergunta é muito importante. Eu tenho utilizado, desde de 2006, o ambiente virtual de aprendizagem MOODLE como auxiliar nos cursos que tenho ministrado. Além disso, me envolvi na oferta de cursos na modalidade educação a distância que utilizam tais ambientes virtuais de aprendizagem.

Apesar de fazer uso do computador, inclusive com recursos baseados na internet, julgo que ainda nos guiamos pelas referências dadas pelas tecnologias convencionais. Ou seja, pelas formas usuais do trabalho escolar que se estabeleceram ao longo do século XIX.

Observo, por exemplo, que é muito comum fazer uma simples transposição dos materiais e das atividades comumente utilizados nas aulas convencionais para dentro de um ambiente virtual de aprendizagem. Mas, isso representa apenas uma das possibilidades de emprego dos recursos. Pode  ser um passo importante (e até interessante) na medida em que permite um melhor registro de conteúdos, melhora a comunicação, etc.(como auxiliar no ensino dito presencial). Mas, a internet possuí potencialidades que considero que ainda não foram bem delineadas no que se refere aos aspectos pedagógicos dos recursos disponíveis.

O uso, na educação, do computador e das tecnologias de informação e comunicação que estão reunidas (ou são potencializadas) em um ambiente virtual de aprendizagem operado na internet, requer uma abordagem pedagógica própria. Passar a utilizar esses recursos representa mais do que uma simples adesão aos condicionantes técnicos destes.  Requer um tratamento metodológico apropriado. Há sempre o risco de subutilização dos recursos disponíveis ou do emprego inadequado ou mesmo incorreto considerando os critérios pedagógicos.

Estamos, por outro lado, dentro de um processo que transcorre num período tão curto e recente. O vídeo abaixo nos mostra como os diversos recursos hoje comuns - alguns até considerados já antigos - (como os blogs) surgiram faz poucos anos.

Isso, dentro da história, é muito pouco tempo. Nós professores ainda teremos muito o que aprender para darmos efetividade às promessas que as tecnologia de informação e comunicação colocaram para o setor da educação.


quarta-feira, agosto 31, 2011

Como se constrói um fenômeno de mídia?

De início já deixo claro que sou um ignorante completo em relação a esses eventos que, vejo aparecer em chamadas nos portais da mídia (UOL, Globo, etc. ) designados como UFC.

Dia desses, movido mais pela curiosidade de saber o que é isso (sabia que era um tipo de luta, mas nada mais), matei minha curiosidade lendo o verbete UFC na Wikipedia (ao procurar o termo nos deparamos com uma desambiguação - Universidade Federal do Ceará ou Ultimate Fighting Championship). 

Acho que fiquei razoavelmente informado com o que li. Mas a  informação não me moveu no sentido de sentir vontade de ver a transmissão de uma dessas lutas (nem procurar no You Tube algum vídeo).

Fiquei me perguntando, porém, o que atrai as pessoas para ver tais disputas. Apesar de ninguém do meu círculo de convivência familiar ou profissional, nem meus amigos, falar sobre tais lutas, percebo  que há interesse de muita gente. Como eu disse, as lutas tem chamadas em destaque nos portais na internet.

Hoje, no blog do Luís Nassif, vi que já há uma disputa entre emissoras de TV para transmitir tais eventos. O comentário de um dos leitores parece que me deu uma pista. Ele fala que o modelo das luta atrai aqueles que estão acostumados com os "consoles radicais". Ou seja, os jogos eletrônicos criaram um mundo próprio que agora os seres humanos tentam mimetizar nesses confrontos realizados em um ringue octogonal. Pode ser, é uma hipótese que me parece plausível. Mas, ainda tenho dúvidas.

George Canguilhem afirma em uma de suas obras que as interpretações sobre o funcionamento do corpo humano incorporaram, na modernidade, os modelos de funcionamento das máquinas, sendo que essas, antes, foram construídas tendo o corpo humano como referência. Será que que há um paralelo no caso desses combates? O virtual, que procura reproduzir o ser humano, mas um ser humano que não tem limites físicos, serve agora de modelo para criar uma atividade realizada por seres humanos de verdade?

Continuo sem vontade de ver as tais lutas. Mas entender como se constrói esse fenômeno midiático é interessante.

domingo, março 13, 2011

Museu de Rio Claro: será que o fogo não veio do céu?

Fui à Rio Claro (SP) no carnaval e tive uma triste surpresa. Um incêndio consumiu o prédio do Museu Histórico Pedagógico Amador Bueno da Veiga. Já se trata de uma notícia antiga. Afinal, o acontecimento se deu na madrugada do dia 21 de junho de 2010 (clique aqui para ver a notícia na página do Jornal Cidade de Rio Claro).
Quando soube do fato fiquei logo pensando na dimensão da perda. O prédio, por si só, possui um valor imenso. O acervo era grande e variado. Enfim, pensar que tudo aquilo havia sido queimado me deixava muito triste.
Agora, lendo as notícias sobre o fato, descobri que, pelo menos uma parte do acervo não se perdeu. Isso porque o prédio do museu estava fechado para a visitação na medida em que passava por um processo de reforma. Esta, por sua vez, parece que era descontínua e não tinha perspectiva de conclusão. Mas, de todo modo, ainda não ficou claro para mim a extensão da perda do acervo.

Quanto ao prédio, visitei as agora ruínas do mesmo. A foto abaixo dá uma ideia do seu estado.


Uma comparação com uma foto tirada logo depois do incêndio (veja a foto) nos dá mostra que a parte superior parede da face da porta de entrada do prédio (na avenida 2), assim como de uma das laterais ruíram posteriormente (ou foram demolidas). Do mesmo modo podemos ver que a outra parede lateral (que dá para a rua 7) e a dos fundos do edifício estão sustentadas por meio de um escoramento. Em consulta ao noticiário li que o prédio será restaurado. Esperamos que sim. Mas isso parece ainda incerto.
Chamou-me ainda a atenção um vídeo postado no YouTube que mostra o incêndio e, inclusive, a chegado do Corpo de Bombeiros. Pode-se reparar que o incêndio ocorre no pavimento superior e no telhado.



Encontrar as causas de um incêndio não deve ser uma coisa muito fácil de fazer. As notícias que apurei apenas relatam que a polícia iria investigar. Ao mesmo tempo, no terreno da retórica da disputa política, diversos atores apontam o dedo para este ou aquele responsável. Evidentemente, os ocupantes dos cargos públicos de mando do executivo são os alvos mais comuns: prefeito, secretários, etc. Na Câmara dos Vereadores não foi diferente.
Isso é irônico na medida em que anos atrás, um vereador, defendendo a suposta modernização da cidade se fez fotografar diante de uma edificação antiga com uma marreta nas mãos - uma residência que acabou sendo misteriosamente consumida por um incêndio tempos depois.
Mas, o que vi no vídeo me faz lançar uma hipótese sobre a causa do incêndio. Acredito que ela é bastante razoável. Penso que o fogo veio de cima e caiu sobre o telhado. De modo objetivo: um balão de ar quente caiu sobre o telhado e deu início ao desastre.
Os motivos que me fazem pensar assim são os seguintes:
1) O fato ocorreu em junho - mês que tradicionalmente muitas pessoas cultuam o hábito (irresponsável) de soltar balões por conta das tradições do período festas juninas.
2) O incêndio ocorreu em Rio Claro - e esse é motivo mais forte.
Morei diversos anos naquela cidade. Muitos balões podem ser vistos flutuando no céu daquela cidade. Posso afirmar que há uma tolerância e um descaso da sociedade de Rio Claro em relação ao fato de que muitas pessoas soltam balões. É, praticamente, uma tradição - nem sempre lembrada - na cidade. Há grupos organizados que soltam grande balões durante o ano todo - inclusive carregando cargas de fogos de artifício que são detonados durante o voo. E, há um inumerável contingente de pessoas de todas as idades que soltam pequenos balões especialmente ao longo dos meses de maio, junho e julho.

Apesar de ser comum a prática de soltar balões e a sua maior incidência ocorrer nos meses mais secos do ano, nunca vi, durante o tempo que morei em Rio Claro, uma ação no sentido seja de coibir, seja de evitar por meio da conscientização que as pessoas soltem balões.
Isso, evidentemente, não exime de responsabilidade os administradores públicos. Contudo, é preciso salientar que a sociedade como um todo é também responsável. Viver sob o risco de incêndio por conta de um costume de pessoas irresponsáveis e não fazer nada é aceitar, enfim, ser irresponsável também.

domingo, novembro 14, 2010

Raridades de minha biblioteca 2


Outra raridade de minha biblioteca é a edição de Os papéis de Aspern (The Aspern papers), novela do escritor americano Henry James (1843-1916).
Como o Caça ao Turpente, este volume foi publicado pela Interior Edições, em 1984. Também como a primeira obra, esta foi traduzida e apresentada por Álvaro A. Antunes.
Pensei que se tratava da única tradução para o português dessa novela. Contudo, ao preparar este post, numa busca nos catálogos online das livrarias descubro uma edição portuguesa (Os manuscritos de Aspern, da Editora Relógio D'Água). De qualquer forma, continua sendo um texto raro aqui no Brasil (se você quer ler The Aspern papers, em inglês, pode baixar na biblioteca virtual do Projeto Gutemberg - para acessar, clique aqui).
O texto nos remete a diversas indagações. Uma delas é quais são os limites que nos colocamos para atingir nossos objetos de desejo.
Um editor americano procura textos inéditos de um famoso escritor chamado Jeffrey Aspern que morrera há muito tempo. Empenhado nessa missão, vai à Veneza para tentar obter misteriosos manuscritos de Aspern que pertenceriam a uma mulher (a Senhora Bordereau) que, na juventude, teria mantido um relacionamento amoroso com o escritor. Diante da reclusão que vive a senhora Bordereau e dos motivos que o movem, o editor cria uma ardilosa estratégia: apresentando-se com um nome falso propõe pagar boa quantia pela locação de acomodações da casa de Bordereau e, assim, encontrar meios - quaisquer que fossem - para chegar aos cobiçados papéis que estariam guardados na casa.
Colocado nessa situação, o personagem é testado, até o seu limite, no que se refere à paciência, ao caráter e, finalmente, à realização de suas vontades. No clímax da história o personagem principal passa, num momento, da condição de caçador para condição de presa. Seu objeto do desejo aproxima-se e afasta-se e ele se vê envolvido num grande problema: Pode até alcançar o que quer. Contudo, qual é o tipo de sacrifício que ele aceitará pagar por isso?
Ao mesmo tempo, a novela nos coloca diante de temas bastante atuais como o direito à privacidade em confronto com os interesses comerciais envolvidos na comercialização das histórias das vidas das pessoas.
Uma excelente obra. Pena que, diante das circunstâncias da edição brasileira, é quase tão desconhecida e inacessível quanto os manuscritos da narrativa.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Mídia e política

Qual a capacidade que a mídia tem de conduzir o processo político? Essa é uma questão que se coloca quando queremos compreender a democracia na atualidade.
Vi referências a um livro recentemente lançado no qual o historiador dirige o olhar sobre as matérias publicadas por importantes jornais cariocas nos primeiros anos da década de 1960. Segundo constatou, O Globo, O Jornal e o Jornal do Brasil mantiveram pesado ataque contra o governo de João Goulart e poderiam ter influenciado para o desfecho do golpe de 1964.
Ainda não li o livro. Mas li duas entrevistas do autor e considero que a proposta é muito interessante. Esses veículos de informação teriam assumido, de modo privado, funções da ação política como se fossem os únicos e verdadeiros representantes da sociedade. Para ler a entrevista publicada na página da revista História Viva, clique aqui. Para ler a entrevista na pagina da Associação Brasileira de Imprensa, clique aqui.

sábado, novembro 06, 2010

Raridades de minha biblioteca 1



Em meados da década de 1980 comecei a compor a minha biblioteca. Comprar livros era uma novidade interessante para mim. Os livros que lera até então eram, em sua maioria tomados em empréstimo de bibliotecas públicas. Poder ter o meu próprio livro era uma experiência sem igual.
Contudo, uma série de obstáculos apareciam entre eu os meus desejados livros. A falta de experiência como comprador, a falta de recursos suficientes em confronto com o sempre elevado preço dos livros, além da terrível inflação que enfrentávamos naquela época, tornavam o ato de comprar esses objetos algo próximo da aventura.
Não tínhamos, ainda, a internet e as livrarias on-line. Mas havia a Leia Livros, uma revista que acabou extinta, o Folhetim na Folha de S. Paulo e o Suplemento Cultural do Estado de S. Paulo. Por meio deles eu fazia dos livros meus objetos de desejo.
Num dia, lendo um desses veículos acabei conhecendo uma pequena editora chamada Interior Edições. Ela ficava na cidade de Além Paraíba, em Minas Gerais. Foi provavelmente no início de 1986. Não sei precisar como foi, mas provavelmente aconteceu por conta da leitura de resenha do livro "A caça ao Turpente". Penso que foi assim porque, desde daquela época, tenho o costume de, ao adquirir um livro, escrever o meu nome e a data da aquisição. No exemplar desse livro anotei "maio de 1986".
Adquiri o referido livro por meio de compra direta na editora, com o negócio sendo operacionalizado, provavelmente, pelo reembolso postal. Negociei por meio de cartas. Não era fácil como hoje.
Mas, valeu a pena. Recebi, aliás, fui buscar (e pagar) na agência do correio, os meus exemplares adquiridos.
Vou mostrar neste post apenas de A caça ao Turpente. Num próximo post vou falar dos outros livros lançados pela Interior Edições.
A caça ao Turpente é uma tradução de The hunting of the Snark, de Lewis Carrol. Aiás, trata-se de uma edição bi-lingue da obra. Edição muito bonita e bem cuidada, por sinal. Há uma introdução feita pelo tradutor, o prefácio do autor, o texto propriamente, um conjunto de notas à tradução e dois apêndices que tratam do universo literário de Lewis Carrol. A capa (vocês podem ver) é bem apropriada ao conteúdo da obra.
O autor é mais conhecido pelos Alice's adventures in wonderland e Through the looking-glass. Aliás, eu comprei e li, na mesma época, a edição com a tradução de Sebastião Uchoa Leite, desses dois textos (CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Tradução Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Summus, 1980).
Lewis Carrol (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) foi professor de matemática na Inglaterra, no período vitoriano e escreveu obras que se caracterizam pela ousadia literária. Classificar sua obra como nonsense é reduzi-la e fazer um juízo simplista.
A caça ao Turpente é um poema. Um poema que narra a aventura de uma caçada a uma criatura fantástica e estranha. Turpente foi a solução que o tradutor (Álvaro A. Antunes) encontrou para expressar em português uma das "palavras valises" inventadas por Carrol. Considerou que Snark é uma mistura que contrai as palavras snake (serpente) e shark (tubarão).
Os caçadores, por sua vez, não são menos estranhos: Campainha (Bellman), o comandante, é acompanhado, no navio, por Chineleiro, Chapeleiro ("um perito ao olhar"), Conselheiro ("pra causas, contendas"), Corretor ("para os bens valorar"), Carambola (Billiard-marker), Caixa [de banco] ("havendo enorme proventos/Guardar-lhes toda quantia"), Castor, entre outros estranhos tripulantes.
A caçada, por sua vez, se dá por meios e movimenta recursos que fogem ao comum, como podemos ver nessa passagem que está na página 79:

Com dedais e cautela saíram a caçá-lo;
Com garfo e esperança o achar;
Com uma ação ferroviária ameaçaram matá-lo;

Com sabão e sorriso o encantar.

Tudo isso torna, enfim, a leitura do texto uma fascinante aventura.


A caça ao Turpente, hoje, é um livro raro. A editora, ao que tudo indica, não funciona mais. Em todos esses anos nunca vi um exemplar numa livraria. Segundo os sistemas de busca no acervo, a Biblioteca Nacional possui um exemplar, a Biblioteca Mario de Andrade (de São Paulo), não possui exemplares, o sistema de bibliotecas da USP possui apenas um exemplar, as bibliotecas da Unicamp, da Unesp e da UFRJ também não possuem exemplares da obra.





terça-feira, novembro 02, 2010

Batalha campal virtual

Hoje, observei com curiosidade o que vou denominar de uma batalha campal virtual. Na verdade esse confronto não se deu apenas hoje. O fato de ser um feriado, por outro lado, parece que potencializou a dita batalha.
Acompanhava as notícias nos portais da grande mídia, em especial as notícias a cerca das articulações políticas pós eleições, no plano federal. No portal UOL, do grupo do jornal Folha de S. Paulo, uma notícia sobre nomes que podem compor o ministério de Dilma. No portal do jornal Estado de S. Paulo um interessante mapa da eleição mostra o percentual de votos de cada candidato no segundo turno em cada município - mapa é pintado de vermelho (se Dilma venceu) ou de azul (se Serra venceu). Como no Google map, é possível aproximar ou afastar. Ao colocar o cursor sobre o mapa aparece o nome do município e o percentual de votos de cada candidato (clique aqui para ir para a página - há ainda outras informações e os mapas com resultados por bairros nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro).
Mas, o que acabou me chamando a atenção foram os comentários de leitores. Era aí que acontecia o que chamei de batalha campal virtual. Provocações, ofensas, gritaria (sim porque a caixa alta - que no mundo virtual foi convencionado como falar alto - imperava), rancores, escárnio, preconceito, tudo isso estava presente.
Manifestações que revelam ódio e sentimentos primários. O mundo virtual se transformou num lugar de confronto violento, insano, desregrado. Apesar disso, interessante observar, nesse caso, dois aspectos:
1) percebe-se uma divisão dentro desse segmento que, numa imensa simplificação, poderíamos chamar de classe média - representada por esses personagens que, na manhã de um feriado, sentam-se diante do computador e constroem discursos inflamados a cerca dos resultados da eleição e das perspectivas para a política no plano federal em 2011. Não se trata, portanto, de um país dividido - como eu li alguns dias antes da eleição - mas de uma fração de classe social que está dividida.
2) essa fração de classe social é escolarizada, possui recursos materiais e tem acesso às tecnologias de comunicação e informação que permitem que seus membros participem do mundo virtual - mais especificamente dessa praça pública que são os comentário de matérias nos portais de notícias - movidos pela paixão, reduzem o debate à isso que chamei de batalha campal virtual.
É um interessante fenômeno para ser estudado na medida que se trata de uma forma moderna de enfrentamento no campo político - pelo menos no diz respeito ao discurso político.
Agora, interessante saber o que move o indivíduo num confronto como esse. Aliás, um confronto sem face a face. Em tese é possível, inclusive, agredir alguém que, no mundo real, nos parece (ou é) simpático. Isso porque não há garantia de identificação. Assim, um comentário agressivo pode ser dirigido, sem saber, ao meu vizinho que toma o elevador comigo, ou a alguém da minha família.
Muito se tem dito sobre a grande potencialidade que a internet traz para o mundo da político decorrente da ampliação dos espaços de participação as discussões. Contudo, não podemos nos esquecer da possibilidade, como observamos no Brasil hoje, dessa batalha campal virtual que, como observamos, esvazia o debate.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Minha opção

Quem estava lá em 1989 vai se emocionar... Sem mais palavras, apenas as imagens para dizer o que queremos:

terça-feira, outubro 05, 2010

Analfabetismo?

Encerrado o primeiro turno das eleições 2010 um assunto vem à mídia para rivalizar com a disputa presidencial. Trata-se da eleição do cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva como deputado federal pelo estado de São Paulo. Francisco é conhecido pelo nome do personagem que representa em programas na TV: Tiririca. Recebeu 1353820 votos e, dessa forma, foi o candidato a deputado que recebeu a maior votação absoluta nessa eleição.
Ocorre, no entanto, que há uma ação movida pela Procuradoria Regional Eleitoral contra Francisco Everardo tentando provar que ele é inelegível uma vez que seria analfabeto (clique aqui para ver matéria do portal G1).
A Constituição Federal estabelece que todo cidadão maior tem o direito de votar. Com isso, o direito ao voto estende-se aos analfabetos. Essa foi uma inovação importante da atual Constituição uma vez que em todas as Constituições anteriores o direito ao voto era restrito aos que sabia ler e escrever. Essa restrição, na Primeiro República, fazia com que o eleitorado fosse muito pequeno na medida que a grande maioria da população era analfabeta. Por isso, nas primeira décadas do século XX, intelectuais ligados ao setor da educação viam na ampliação do acesso à escola primária um meio de fazer uma revolução política - uma vez que o resultado seria a ampliação e diversificação do eleitorado.
Por outro lado, a atual Constituição Federal restringe o acesso aos cargos eletivos. Textualmente: "São inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos" (artigo 14, parágrafo 4º, grifos nossos).
Parece muito claro: o cidadão que é analfabeto não pode sequer se alistar como candidato.
Contudo, o problema é definir, de modo objetivo o que é ser analfabeto. Não é simples. A própria matéria cujo link indicamos acima mostra alguns critérios. Por exemplo, se o candidato apresentar um comprovante de que foi matriculado em uma escola já é o suficiente, dentro das normas, para que se torne alistável e elegível. Mas, para além das regras administrativas da justiça eleitoral, o entendimento do que ser alfabetizado se mostra complexo. Por isso a existência de noções como analfabetismo absoluto, analfabetismo funcional e letramento, por exemplo. Uma discussão interessante sobre o tema encontra-se num relatório por Sérgio Haddad numa pesquisa coordenada por Vanilda Paiva (ver o texto aqui).
Há um outro lado que merece ser tratado. É possível perceber em alguns textos publicados e nos comentários que surgem, a manifestação de um discurso preconceituoso. Há uma tentativa de desqualificação do candidato eleito - e a suposta condição de analfabeto (por mais fluida que essa condição parece ser) é utilizada, estrategicamente, para legitimar essa tentativa.
De outro lado, o candidato é apresentado como palhaço. Em outras circunstâncias ele seria "humorista". Essa transformação no uso das designações não é uma coisa a toa.
Além disso, o vazio programático de sua campanha eleitoral é sempre mencionado. Esse argumento me parece o mais hipócrita. A maior parte dos candidatos aos cargos do legislativo não possui propostas. Nesse sentido, o diferenciaria Tiririca de outro candidato desconhecido?
O fato de utilizar o personagem como meio de atrair votos é também criticado. Mas, então porque a mídia mantém coladas a realidade e a ficção? Uma consulta descuidada à pagina do portal G1 (que é o braço da Rede Globo na internet) pode fazer o leitor confundir fatos reais com aqueles criados nas novelas apresentadas na TV.
Exibicionismo, tipos que se sustentam apenas pela imagem ou por características vazias de conteúdo são regra no mundo midiático.
Por que, então, condenar Tiririca?
A melhor resposta que encontrei até agora veio do cartunista Laerte: